Talvez já tenha lido ou ouvido falar da importância de fazer um orçamento familiar. É provável que já tenha tentado mas desistido por ser difícil ou apenas porque lhe pareceu uma grande seca ou perda de tempo. Neste artigo vou-lhe dar algumas dicas para que consiga fazer um orçamento que se ajuste aos seus hábitos de vida.

Tudo começa com um propósito de vida

Podemos defender a importância e todas as potencialidades de um orçamento familiar mas mesmo assim muitas pessoas optam por não o fazer. É provável que não percebam o real impacto do controlo do destino que damos ao nosso dinheiro. Mas o mais importante é que tipicamente não temos um conjunto de objetivos de vida mais abrangente e exigente e que nos obriga a poupar dinheiro. Porque se tivéssemos objetivos ambiciosos, e como o dinheiro é escasso, teríamos a necessidade de controlar o destino que damos ao nosso dinheiro.

Mas que objetivos ambiciosos são esses? Bem, cada família tem os seus objetivos, mas existe um conjunto de objetivos que todos deveremos ter caso queiramos ter uma base mínima de conforto:

  1. Assegurar a estabilidade financeira da família, garantindo que tem os recursos necessários para fazer face a imprevistos (que irão sempre acontecer, não sabemos é a altura);
  2. Garantir um fundo de poupança para o longo prazo, nomeadamente (mas não só) poupar para a reforma, uma vez que já é senso comum que não teremos as reformas que nos prometeram;
  3. Pagar os estudos dos filhos ou dispor de uma reserva para despesas de saúde.

A primeira etapa – Os diferentes tipos de rendimentos

O orçamento familiar começa a ser construído com a identificação do rendimento mensal da família, tendo especial atenção a divisão entre o rendimento fixo (aquele que temos a certeza de vir a receber) e o rendimento variável (aquele que podendo ser recebido todos os meses não é garantido ou estável).

Saber quanto ganhamos pode ser uma tarefa simples mas é meio caminho andado para perceber quanto podemos gastar. E podemos gastar menos do que recebemos, deixando margem para a poupança e para os imprevistos.

A segunda etapa – Definir um mínimo de poupança mensal

Depois de identificado o seu rendimento deverá destinar automaticamente uma parte deste rendimento para a poupança. Não precisa de ser muita. Precisa de ser uma poupança automática mensal de um valor que seja possível poupar todos os meses.

A terceira etapa – Identificar as despesas essenciais

As despesas essenciais são todas aquelas despesas que teremos de realizar para ter um mínimo de qualidade de vida. É fácil identificarmos estas categorias mas temos também de saber o valor que é razoável destinar a estas despesas. De forma geral, falamos de despesas como:

  • Habitação – Aqui incluímos todas as despesas da sua casa, seja ela própria ou arrendada. Não esquecer de incluir todos os custos com os seguros, impostos e manutenção do imóvel;
  • Utilities – São todas as despesas com os contratos que temos em casa, nomeadamente gás e eletricidade, água e telecomunicações. Colocamos aqui as telecomunicações dado estarmos a falar de um contrato, se bem que uma componente da despesa não é claramente essencial.
  • Transportes – Dependendo do local da habitação, escolas e trabalho, o transporte pessoal pode ser considerado essencial ou não. Existem alternativas de transporte público mas infelizmente são limitadas. Em qualquer dos casos, consideram-se aqui as despesas com o transporte público (passes) ou privado (gasolina, estacionamento, portagens, seguro, etc).
  • Educação e ensino;
  • Medicamentos e tratamentos médicos, nos quais se pode colocar as despesas com seguro ou plano de saúde.
  • Alimentação e supermercado e vestuário.
  • Créditos.

Estas serão tipicamente as principais despesas essenciais. São estas as despesas que deverão ser asseguradas em primeiro lugar sob pena de colocarmos a nossa vida em perigo. O mesmo será dizer que antes de gastarmos dinheiro noutras coisas temos de assegurar que todas estas despesas estão pagas. Sim, isso não acontece na realidade pois temos tantas outras despesas que passamos à frente. Já perdi a conta ao número de famílias a quem tive de dizer para cortar no tabaco ou no telemóvel para que tivessem dinheiro para o supermercado ou para os créditos…

Questões práticas

O ideal seria que conseguíssemos fazer o orçamento familiar todos os meses e em família. Se conseguíssemos recolher as faturas e os talões comprovativos das despesas e se fosse possível ter tudo alimentado automaticamente num programa. Mas se o ótimo é inimigo do bom, poderemos optar por:

  1. Fazer um orçamento com rigor uma vez por trimestre;
  2. Analisar as despesas e renegociar os contratos e fazer os ajustes necessários;
  3. Avaliar a possibilidade de reforçar o nosso programa de entregas programadas de poupança.

Vai reparar que ao fazer pela primeira vez o seu orçamento gasta demasiado dinheiro em coisas não essenciais. Não defendo que a sua vida não tenha conforto mas antes que ganhe a liberdade para se questionar sobre as suas despesas e hábitos de vida. Aliás, esta é mesmo uma das grandes valias do orçamento familiar. Devolve-lhe a liberdade e torna possível traçar um caminho para atingir os seus objetivos, quaisquer que eles sejam.